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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

ULTIMATUM - (ÁLVARO DE CAMPOS, 1917)


Mandato de despejo aos mandarins do mundo

 Fora tu,
 reles
 esnobe
 plebeu
 E fora tu, imperialista das sucatas
 Charlatão da sinceridade
 e tu, da juba socialista, e tu, qualquer outro
 Ultimatum a todos eles
 E a todos que sejam como eles
 Todos!

 Monte de tijolos com pretensões a casa
 Inútil luxo, megalomania triunfante
 E tu, Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral
 Que nem te queria descobrir
   
 Ultimatum a vós que confundis o humano com o popular
 Que confundis tudo
 Vós, anarquistas deveras sinceros
 Socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores
 Para quererem deixar de trabalhar
 Sim, todos vós que representais o mundo
 Homens altos
 Passai por baixo do meu desprezo
 Passai aristocratas de tanga de ouro
 Passai Frouxos
 Passai radicais do pouco
 Quem acredita neles?
 Mandem tudo isso para casa
 Descascar batatas simbólicas

 Fechem-me tudo isso a chave
 E deitem a chave fora
 Sufoco de ter só isso a minha volta
 Deixem-me respirar
 Abram todas as janelas
 Abram mais janelas
 Do que todas as janelas que há no mundo

 Nenhuma idéia grande
 Nenhuma corrente política
 Que soe a uma idéia grão
 E o mundo quer a inteligência nova
 A sensibilidade nova
O mundo tem sede de que se crie
 Porque aí está apodrecer a vida
 Quando muito é estrume para o futuro
 O que aí está não pode durar
 Porque não é nada

 Eu da raça dos navegadores
 Afirmo que não pode durar
 Eu da raça dos descobridores
 Desprezo o que seja menos
 Que descobrir um novo mundo
 Proclamo isso bem alto
 Braços erguidos
 Fitando o Atlântico

 E saudando abstractamente o infinito.
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